
A busca por uma resposta ética aos tempos incertos que atravessamos — marcados pela ascensão de novos autoritarismos, por deslocamentos geoeconômicos e pela iminência de catástrofes ambientais — projeta a Amazônia ao “centro do mundo”. Não apenas por ser um bioma estratégico na regulação climática do planeta, mas por reunir uma vasta coleção de memórias, experiências, modos de vida, cosmologias e saberes que apontam para outras possibilidades de coexistência e equilíbrio.
Nesse sentido, a Amazônia se afirma como contraponto radical ao fatalismo que atravessa a cultura contemporânea, marcada muitas vezes pela sensação de esgotamento e pela dificuldade de imaginar futuros alternativos. Diante da paralisia provocada pela crise, a floresta emerge não como ruína anunciada, mas como potência viva de imaginação e reinvenção — um laboratório vivo que nos convoca a criar novas imagens, novos símbolos e novos imaginário sobre o mundo que queremos, dentro de uma lógica que também considera a reinvenção do Capitaloceno.
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Como a cultura em sua pluralidade de técnicas, linguagens e discursos pode ser um agente de regeneração e cuidado com a vida? ⬎

O Programa Internacional Ecologias Especulativas é voltado para estimular a criação de um novo regime sensível, promovendo narrativas agenciadoras de naturezas/culturas. A vivência, a interação e a troca de energia com a multiplicidade de vida humana e não humana dos ecossistemas da Amazônia serão estímulo para a criação artístico em diálogo com os desafios do contexto local e global da crise socioambiental.
RECONHECEMOS A FLORESTA COMO UM TERRITÓRIO POTENTE PARA A PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO, REFLEXÃO CRÍTICA E PRÁTICA ARTÍSTICA. A PARTIR DESSA COMPREENSÃO, PROMOVEMOS ENCONTROS FORMAIS E EXPERIMENTAIS DE APRENDIZADO COLETIVO, EM RESERVAS AMBIENTAIS E COMUNIDADES INDÍGENAS.
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DEIXAR DE VER PARA VIVER E COEXISTIR COM A FLORESTA
Ao longo da trajetória do LABVERDE no campo da cultura climática, observam-se transformações profundas na maneira como compreendemos nossa relação com o planeta e construímos narrativas para significá-la. Por volta de 2010, ainda predominava uma visão em que a natureza era representada como passiva, enquanto a cultura ocupava uma posição de distanciamento, organizando e objetificando o mundo natural. Em 2015, com a intensificação do debate sobre o Antropoceno, ocorre uma virada conceitual decisiva: reconhece-se a ação humana como força transformadora do sistema terrestre, ao mesmo tempo em que emergem discussões sobre múltiplas agências — humanas e não humanas. Já em torno de 2020, consolida-se um movimento cultural global comprometido não apenas em documentar a extinção da vida e os impactos das mudanças climáticas, mas também em denunciar injustiças ambientais e reivindicar abordagens decoloniais e socioambientais mais críticas e integradas.
Embora esses movimentos ocorram de forma simultânea, em contextos e geografias distintas, na metade desta década torna-se perceptível uma nova inflexão: uma abordagem mais aplicada e propositiva na forma como a cultura se relaciona com a natureza. Não se trata apenas de diagnosticar a crise, mas de imaginar soluções, desenvolver tecnologias e traçar caminhos de reparação diante dos danos acumulados pelo Neoliberalismo. Essa perspectiva amplia o campo de ação ao reconhecer a potência das sabedorias ancestrais e das tecnologias orgânicas, articulando conhecimento científico e práticas tradicionais, e navegando com fluidez entre tempos, territórios e cosmologias distintas.
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O programação será realizada em agosto de 2023, com curadoria de Lilian Fraiji, participação do filósofo Emanuele Coccia e mediação de especialistas da Amazônia (ativistas, indígena, antropólogos, biólogos e pesquisadores de história natural). É apoiado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio), pela University of the Arts London e pela Embaixada da França no Brasil.
Em sua 14ª edição, o Programa Internacional Ecologias Especulativas se dedica ao tema da “Resiliência”, compreendida, segundo a ONU, como a capacidade de um sistema, comunidade ou sociedade de resistir, absorver, acomodar-se, adaptar-se, transformar-se e recuperar-se dos efeitos de ameaças e crises de maneira oportuna e eficiente. Trata-se não apenas de sobreviver ao impacto, mas de preservar, restaurar e até reinventar suas estruturas e funções essenciais por meio de estratégias conscientes de gestão de riscos. Ao trazer essa noção para o campo das ecologias especulativas, o programa propõe expandir o conceito de resiliência para além do aspecto técnico, incorporando dimensões culturais, sociais e imaginativas como forças fundamentais de regeneração.
Com a participação de profissionais de diferentes campos do conhecimento, Ecologias Especulativas: Resiliência será realizado em Outubro/Novembro, nas proximidades da cidade de Manaus, em imersão direta com o território amazônico. O programa de residência tem curadoria de Lilian Fraiji e da ambientalista Flavia Santana, e contará com a presença de convidados internacionais, além da mediação de especialistas da região amazônica — entre eles ativistas, lideranças indígenas, antropólogos, ecólogos e pesquisadores de história natural — promovendo um ambiente de troca transdisciplinar, situado e profundamente conectado às realidades socioambientais da floresta.
Esta chamada é destinada a artistas internacionais. A taxa de participação contribui para o fortalecimento do ecossistema econômico e para a sustentabilidade da iniciativa, que é sem fins lucrativos, além de viabilizar nossa política de inclusão por meio da concessão da Bolsa Labverde, voltada à democratização do acesso ao programa. São elegíveis para candidatura apenas artistas do Sul Global que atuem em seus respectivos territórios.

















